Gato Gay ou uma compulsiva heteronormatividade

Por: Priscila Gontijo

O que realmente precisa ser “curado”?
Eu sofria de uma normatividade compulsória que tentava me destruir. Ser gay foi justamente o fator que me livrou da real enfermidade: a heteronormatividade compulsiva.

Por motivo de força maior, o texto da coluna desta semana não pôde ser digitado pela colunista Priscila Gontijo e foi escrito por Kubrick, seu gato bissexual, transexual travesti, revisor incansável e repórter policial.

Numa  sexta-feira do dia 15 de Setembro de 2017, o juiz federal Waldemar Cláudio de Carvalho, da 14ª Vara Federal, liberou psicólogos a tratarem gays e lésbicas como doentes, podendo fazer terapias de “reversão sexual”, sem sofrerem qualquer tipo de censura por parte dos conselhos de classe. O magistrado argumentou “liberdade científica” para tomar a decisão. A medida é liminar e acata uma ação popular movida por profissionais que dizem acreditar na “cura gay”. A eventual decisão de mérito nessa ação representa um retrocesso social inaceitável. Para o Conselho Federal de Psicologia, terapias de reversão sexual representam “uma violação dos direitos humanos e não têm qualquer embasamento científico”.

Na ocasião, fiz por meio desta um apelo. Se um juiz concedeu uma liminar que, na prática, torna legalmente possível que psicólogos ofereçam pseudoterapias de reversão sexual, popularmente chamadas de cura gay, gostaria de reivindicar redobrada atenção para a doença da heteronormatividade.

A cultura gay representa uma minoria que luta contra a hegemonia e centralização heteronormativa para que alcance a concretude da identidade diante da diversidade cultural existente. Escrever sobre a cultura gay é uma tarefa árdua que exige ampla leitura dos conceitos variados de cultura e suas representações. A conformação dessa população, de suas identidades e modos de vida, aos padrões ditados pela norma heterocentrada se revela castradora.

Quais afetos estão sendo mobilizados no contemporâneo, e como?

Foucault (1988) argumenta que o desenvolvimento das sociedades modernas e a emergência do Estado fez nascer uma nova forma de regulação social: a “sociedade disciplinar”, por meio do refinamento da vigilância e controle. O autor analisa a passagem do poder soberano exercido em nome da lei, como uma força negativa (“Não faça”), apoiado na ameaça de morte, ao poder enquanto força positiva, ancorado na possibilidade do prolongamento da vida.

A possibilidade de prolongamento da vida advinha das ciências que começaram a produzir conhecimento sobre a espécie e o funcionamento do organismo. O poder foi transformado em controle disciplinar por meio da instalação de medidas higiênicas e profiláticas que deixariam o corpo menos sujeito ao acaso biológico (FOUCAULT,1988; WEEKS, 1999).

A inscrição das pessoas na nova forma de poder denominou-se bio-poder e implicou novos procedimentos de controle. A sexualidade que foi entendida como acesso “à vida do ser e à vida da espécie” ao mesmo tempo, passou a ser o foco da regulação. O corpo e as taxas populacionais  passaram a ser controladas por meio de intervenções subjetivas e sociais (FOUCAULT, 1988).

Para ilustrar a presente coluna, tomarei a minha “dona” de empréstimo, apenas como exemplo de que a soberania da heteronormatividade pode fazer mal à saúde. Essa senhora costuma me chamar de “mãe”, mas é uma mera inquilina do meu apartamento, uma hóspede transitória, já que vive sempre de malas prontas.

Pois bem, essa moradora, roteirista e escritora de hábitos nada convencionais, com a qual convivo há mais de 12 anos e divido o meu habitat, costuma namorar uns homens heterossexuais brancos e trazê-los para minha casa. Com certo constrangimento, relato suas últimas aventuras com essa espécie refém da normatividade.

Nos últimos tempos, fui obrigado a conviver de forma implacável com um dramaturgo psicopata e um romancista “só que não”. Explico. O dramaturgo foi denunciado por abuso psicológico por uma das ex-alunas e várias outras mulheres, inclusive a minha própria companheira de moradia.

Tive que aturar os cigarros desse dramaturgo sem um pingo de talento, ouvir em voz alta suas peças teatrais misóginas e preconceituosas, pra não dizer medíocres, suas mentiras enciclopédicas, seu mau hálito e seus falsos carinhos. Quando a pretensa “mãe” não estava olhando, esse senhor grisalho me dava uns chutes pra eu sair de perto. Ela nunca viu, mas as porradas no meu cocuruto permaneceram na lembrança, deixando marcas indeléveis.

Além disso, o dramaturgo psicopata tinha o péssimo hábito de se alimentar aqui. Correção, se alimentar não, porque aquilo não era comida, era uma ração para humanos intragáveis: batatas fritas e pizzas requentadas. Suas pontas de cigarro entupiram o apartamento, suas mentiras isolaram a mulher em um mundo totalmente opaco, e o pior, a sua ausência foi sentida como tragédia.

Já o romancista “só que não” era mais talentoso, seu último livro, inclusive, posso dizer, me trouxe certa satisfação momentânea, entre um ronco e outro, foi uma bela distração folhear aquelas páginas herméticas.

Mas ele era o Canto de Ossanha ambulante. Sabe aquele homem que diz vou não vai, porque quem vai mesmo não diz? O baixinho branco CIS queria e não queria, ia não ia, encarava para desviar, provocava para fugir em seguida, era uma aberração da dúvida.

Enquanto isso, eu zanzava pela casa em busca de restos de comida, pois minha “dona” se esquecia de me alimentar (perdão, senhora, tive que confessar essa sua falha terrível). Ela estava literalmente hipnotizada pela dúvida existencial do consagrado escritor do marasmo.

Migrando de um lado para o outro da sala exaustivamente, cutuquei a tartaruga cega, mas Filomena já tinha se resignado aos senhores da covardia.

Insisti, mas de soslaio, afinal sou um gato, discreto e elegante, inimigo de invasões e conselhos. Esse texto não é um conselho. Esse texto é um apelo, que fique bem claro, meus senhores.

Pois bem, pra bom entendedor, meio rabo abaixado basta. Meu miado crispado, minha zombeteira procrastinação já seria o suficiente para essa mulher compreender que o célebre escritor do marasmo estava pra mais para o não do que qualquer sim. Ele não conhecia o sim. Estava ilhado em sua paradisíaca hesitação.

E ainda teve o poeta ogro. Tive que aturar todas as manhãs daquele período um sarau de poesias ruins. Era um tal de dor com flor, de pequena com serena, de evoés com sarapatéis, que comecei a ficar irritado.

Bom, chegou a vez do chaveiro bêbado – agora me permito adentrar nos casos mais graves – que, ao abrir a porta da minha residência com a chave nova, prensou a inquilina contra a parede.

Se essa senhora, a tal moradora míope, não lutasse kung fu, provavelmente teria sofrido um estupro e eu seria o único cúmplice. Detesto delegacias e PMs fardados, tenho alergia a fardas de modo geral. Ainda bem que ela soube se defender desse crápula, mas sim, faltou um BO. Essa mulher não denunciou o chaveiro tarado de Perdizes.

Finalmente, o presente texto atravessa esse período obscuro para inaugurar uma nova era, mais promissora e alegre com a chegada de seus amigos gays, que passando por aquela porta trouxeram novas cores à casa.

Essa mulher – pra minha sorte – dividiu a moradia com amigos gays, bissexuais, travestis e simpatizantes.

Aqui entra a seguinte pergunta: e como era a convivência com a turma LGBT?

Em uma palavra.

Pacífica.

Eu acordava – ou em cima da cabeça de um ou sobre a barriga de outro, pois esses eram hóspedes civilizados que costumavam dividir a cama com felinos macios.

Essa turma gentil, de banho tomado, toda vibrante de L’Occitane, trazia patê de salmão pela manhã. Sem exceção.

Ganhei presentes memoráveis de Alfonso, Joelson, Julia, Silvana, Samuel e André Contralto.

Para eles, um gato não é um cômodo. Um gato não é um aparelho de ronronar. Um gato não é um vaso de plantas (gosto delas, que fique claro, são minhas amigas, parceiras e me ajudam na coisa da dor de barriga e das bolas de pelos, possuem um gostinho ótimo).  Mas não sou uma planta, sou um oráculo.

Respeito é bom e eu gosto. (desculpe o clichê necessário).

Não. Não me venham com esse papo de idade. Homens e mulheres de todas as faixas etárias moraram aqui, mas os gays, ah, os nada normativos! Eles sim amam os bichanos como eu, com diligência e afeto. Não é um carinho de empréstimo, como quem passa a mão numa almofada qualquer. Não era um olhar de turista, como quem encara a passeio.  Em tempos brutais, qualquer alisada está valendo.

A heteronormatividade é coisa da realeza, eles te miram do alto de sua primazia, essa burocrática relação está implícita, eles não percebem, pois somos apenas os invasores de sua soberania.

A turma  LGBT era composta de pessoas inteligentes, elegantes, cheirosas, de bom gosto musical, cultas, debochadas, cheias de tiradas deliciosas. Esses seres evoluídos – assim como são os gatos e as gatas – não escreviam poesias bizarras como aquele poeta ogro interesseiro que só queria levar uns livros daqui.

Por muito tempo, nutri a convicção de que essa minha “dona” tinha dedo podre.

Mais tarde, percebi o seguinte: o problema era a arrogância da heteronormatividade que os tais miseráveis possuíam.

Depois de alguns anos se relacionando com homens brancos heterossexuais da classe média, a minha companheira de imóvel adoeceu. Emagreceu 10 quilos, ficou grisalha e levemente retraída. Passou a tomar uns comprimidos e ficou prostrada flertando com um fungo na parede da sala.

Ela mudou o gosto musical – agora, por exemplo –, continua péssimo, trocou o Vivaldi por uma banda obscura barulhenta.

Eu, que sou gay, sou tudo, convivo muito bem com Urano, Frida, Fun Fun, Feijão e a Moça.

Nos amamos na mais felliniana das convivências.

Somos um coletivo onde a hashtag “amor não é doença” impera embaixo dos sofás, entre as gavetas e no mais ermo dos armários.

E para concluir a presente coluna e respeitar o espaço que me foi outorgado, faço aqui o meu apelo.

Homens, melhorem.

Juízes, melhorem.

País, melhore.

Doença mesmo é a heteronormatividade, palavra obsoleta sem risco de contramão.

Uma cura contra a heternormatividade branca, cheia de religiosismos, machismos, untada no psicoticismo que se disseminou feito praga ao redor do mundo, colonizou o afeto.

(Visited 16 times, 3 visits today)

Deixe uma resposta