Hijras na Índia – Acima de qualquer definição

Se você acha que já sabe tudo sobre sexualidade alternativa e conhece de cor e salteado os termos mais comuns no universo GLS, pode rever suas idéias. Isto porque as hijras, na Índia, fogem a qualquer convenção. Eunucos, cross-dressers, hermafroditas, transgêneros, ninguém sabe ao certo o que as hijras são.
O termo hijra era usado tradicionalmente para designar os eunucos, mas hoje ele vai muito além. Provenientes em épocas passadas de lugares tão diversos como China, Grécia e Espanha, as hijras formam hoje uma comunidade estimada de 1 milhão de pessoas na Índia e estão longe de deixar de serem motivo de controvérsias. Enquanto isso, representantes de sua comunidade começam a se destacar no palco político indiano.

Em sua conotação original, as hijras são o terceiro sexo, nem machos nem fêmeas, mas preferem que se refiram a eles no feminino. Meninos castrados, com remoção do pênis e testículos, mas sem a reconstrução da vagina feita pelos transexuais MTF. Mas hoje já se encontram hijras que são simples cross-dressers. Segundo os próprios integrantes da comunidade, as hijras se caracterizam por abrir mão da sexualidade masculina, não terem famílias e viverem celibatárias. Entre os mistérios e preconceitos que  cercam as hijras está o de que elas sequestram crianças para transformar em eunucos, cortando seus genitais. Mas o fato comprovado é que as famílias indianas entregam seus filhos às hijras quando nascem com alguma anomalia genital.

Como as hijras sobrevivem em uma sociedade excludente como a indiana, que discrimina os homossexuais até hoje? Bem, as hijras sempre sofreram a discriminação na pele, sendo ridicularizados e rejeitados. O povo indiano acredita que eles têm poderes mágicos e, por esse motivo, os chama para abençoar e dançar em casamentos e nascimentos, principalmente dos meninos. Elas sobrevivem ainda com a prostituição, sendo geralmente solicitadas quando o cliente não pode pagar o preço de uma noite com uma mulher. A mendicância é outro meio de sobrevivência da comunidade. Mais  recentemente, algumas empresas financeiras indianas inovaram ao empregar hijras para fazerem cobranças.

Mas em meio a esta situação tão massacrante, as hijras começam a se destacar agora na política. Em fevereiro de 2000 um feito histórico para a comunikdade hijra foi realizado: a eleição de Shabnam Mausi, a primeira hijra eleita para o legislativo. “Tia” Shabnam, como é conhecida, tem 40 anos de idade e sempre trabalhou cantando e dançando. Ainda assim, os eleitores a preferiram a qualquer outro candidato. E agora são os maiores partidos indianos que procuram hijras aspirantes na política para os seus quadros. As hijras passam a representar todas as vítimas da sociedade hierárquica indiana.

As hijras são um exemplo inspirador de como pessoas que sempre foram consideradas a escória em uma sociedade dividia em castas e arcaica, podem superar tudo isso e começar a mudar sua situação. Em concurso de beleza de hijras acaba de ser realizado na Índia. Foram mais de 100 participantes e uma certeza: a de que elas conseguiram achar a beleza interior e se posicionar acima de qualquer definição sexual. Num mundo onde é preciso explicar a todos o que é ser homossexual, elas estão, de uma certa forma, num nível superior.

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