Meu filho é Gay e eu sou muito feliz por ele ser o que ele é!

Dong Wanwan é fundadora e presidente da sub-divisão de Shenzhen da PFLAG China, uma organização não-governamental de defesa dos direitos da comunidade homossexual. Descobriu o ativismo graças ao filho que se assumiu como gay e hoje é uma das principais vozes que clamam em nome desta comunidade. Através da sua história, partilhada com muitos outros pais, procura dignificar a homossexualidade num país onde ser gay e lésbica equivale ainda, demasiadas vezes, a preconceito e perseguição.

A história de Dong Wanwan cruza-se com a de Wu Youjian. Para as duas mulheres, foram os filhos e a coragem de se assumirem como homossexuais que as conduziram, em períodos distintos, num processo de descoberta e aceitação. Quando o filho da senhora Dong lhe revelou que era gay, a Parents and Friends of Lesbians and Gays (Pais e Amigos das Lésbicas e Gays) – PFLAG China era já uma associação estabelecida, recentemente co-fundada por Wu Youjian. Foi através das publicações desta activista e do trabalho da organização não-governamental que Dong Wanwan começou a percorrer um caminho que a elevou a uma das vozes mais preponderantes dos direitos da comunidade homossexual em Shenzhen. As histórias de Dong e Wu cruzam-se não apenas entre si, mas também com as de outras centenas de mães e pais que, pelo país fora, contam a sua história, esperando, com ela, derrubar o preconceito e a perseguição que ainda grassam numa das maiores potências mundiais.

“Mãe, amas-me?”, perguntou Yz Zhen, então com 19 anos e acabado de regressar do primeiro ano de universidade na Austrália. “Eu sou gay”, disse-lhe. Hoje, Dong Wanwan não disfarça o choque que aquelas três palavras lhe trouxeram mas, na altura, tudo fez para o esconder do filho. “Porque é que és gay? Pareces bastante normal”, perguntou-lhe. “Eu nasci assim, este sou eu”. Não estava preparado para a revelação mas também não queria mentir quando a mãe lhe perguntou se namorava alguma rapariga. “Eu fiquei chocada mas, para mim, era muito importante ter a confiança do meu filho. Por isso, fingi estar bem com o que ele me disse”. Mas não estava. Chorou durante uma semana, consultou um psiquiatra e passou longas horas a ler artigos sobre homossexualidade. Na altura, recorda, esta era ainda uma “área cinzenta” na China mas, aos poucos, começavam a proliferar artigos de fontes não oficiais.

Hoje, com 55 anos, Dong Wanwan, não sabe já quantas vezes contou esta história. “Muitas, muitas”, diz, com um sorriso a invadir-lhe o rosto. “Eu aceito que o meu filho é gay, mas eu também quero ajudar os outros pais que estão a passar por dificuldades e que se sentem frustrados por não perceberem o que isto significa”. Porque também ela não sabia o que significa ser gay. Porque também ela teve que reconstruir a relação com o filho. Porque conseguiu. Hoje em dia, quando sobe a um palco e encara uma audiência de pais assustados, nervosos e apreensivos – tal e qual como ela há uma década – a mensagem que lhes quer passar é simples: “O meu filho é gay e, olhem para mim, continuo a ser muito feliz, muito confiante e o meu filho vive bem”. Mas, admite, nem sempre foi assim.

“EU TORNEI-ME A VOZ DOS PAIS E TENHO ORGULHO NISSO”

Uma filha que, em palco, partilhou a sua história com a mãe na audiência. Um casal de homens que apresentou o seu neto aos presentes. Passados seis anos, são estas as pessoas de quem Dong Wanwan ainda se lembra, cujas palavras escutou durante o quarto encontro nacional da PFLAG China, em 2012. Nesse dia, misturou-se com o público, arriscou fazer perguntas e ouviu. Hoje, é a presidente e foi a fundadora da sub-divisão de Shenzhen da PFLAG China. “Depois de o meu filho se ter assumido, eu comecei a familiarizar-me com esta comunidade e percebi que não estava sozinha e que, em Shenzhen, havia muitos outros pais de filhos gay que também estavam a ter problemas”, recorda a activista. Yz Zhen, hoje com 28 anos e dono de uma empresa de design em Shenzhen, vive desligado do activismo da mãe. “Para o meu filho, desde que eu o aceite, está tudo bem. Mas eu queria trabalhar para esta comunidade”, afirma a dirigente. “Eu tornei-me a voz dos pais e tenho orgulho nisso”.

A participação nas actividades da associação cedo se desenvolveu em trabalho voluntário. A partir de 2013, Dong Wanwan começa a atender o telefone na linha de apoio que a PFLAG China disponibiliza para os pais, amigos, familiares e, claro, para a própria comunidade homossexual. Foi também a partir desta altura que o organismo nacional começou a conhecer um rápido crescimento, que teve como um dos marcos a fundação da sub-divisão de Shenzhen. É nesta metrópole que a activista organiza, com o apoio da equipa de 80 voluntários, com uma frequência quase mensal, sessões de partilha. Uma das colaboradoras mais activas, conta a dirigente, é uma rapariga que estava apaixonada por um amigo quando ele se assumiu como gay. “Ela quis descobrir o que era esta comunidade e agora está sempre a participar nos nossos eventos”.

“TAMBÉM NÓS TEMOS QUE NOS ASSUMIR PERANTE OS OUTROS”

Considera que a sua história é semelhante à de muitos outros pais? “Para mim, a primeira fase foi bastante parecida à de outras famílias. Primeiro, eles ficam chateados e muito chocados mas, gradualmente, porque amam os seus filhos, não têm outra opção senão aceitar”, afirma Dong Wanwan. Porém, a activista não esconde que existem muitas “histórias tristes”. “No início, é normalmente muito difícil, há muitas discussões mas, no fim, os pais normalmente aceitam. Só que fingem que isto não está a acontecer, encerram o assunto dentro da família e não falam sobre isto com outras pessoas”, explica.

“O mais difícil”, acrescenta a activista, “continua a ser assumirem-se perante os pais”. “Isto continua a ser a coisa mais difícil porque os pais criam expectativas para os seus filhos e eles sentem que, se se assumirem, não vão cumprir com essas expectativas”, explica. Para Yz Zhen, foram precisos cinco anos até conseguir ter esta conversa com a mãe. O pai, separado da senhora Dong há vários anos, apenas soube dois anos depois. “Uma relação próxima entre pais e filho é muito importante para que eles se assumam e nós sempre fomos muito próximos, sempre falámos sobre tudo”, declara a dirigente.

Para a senhora Dong, a homossexualidade de Yz Zhen não é um tabu circunscrito à relação entre mãe e filho. Com o à vontade próprio de quem não se limitou a aceitar, a activista afirma que quem pertence ao seu círculo sabe que o filho é gay. “Eu já contei a todos no meu escritório, aos meus colegas, amigos, familiares. Toda a gente sabe que o meu filho é gay”. Dizê-lo requereu uma coragem adquirida ao longo de um processo. Isto porque, segundo explica, também ela teve que se assumir. Assumir-se como mãe de um filho gay. “Assumirmo-nos é também uma grande história para nós, os pais. Assim que os nossos filhos se assumem nós carregamos este peso. É como se apenas nós soubéssemos e, por isso, também nós temos que nos assumir perante os outros”.

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