Apego à estética ou Síndrome de Peter Pan?


Por MVG (Minha Vida Gay)

A cultura brasileira e moderna já tem uma tendência a incentivar uma vida na base das emoções, do tipo de osmose de costumes, do esquecimento de fatos importantes e da alegria sem medida que serve como uma barreira ou bloqueio para evitar se deparar com algumas realidades que podem ser indigestas, sofridas ou que invariavelmente nos tiram do conforto e nos tornam adultos.

Ninguém quer sofrer mas esquecemos que viver os sentimentos dos desafios é uma experiência que nos humaniza, ou melhor, dá a validade para ser humano.

E o gay quer se tornar adulto? Muitos não querem.

Primeiramente cito aqui nossa tendência a nos apegar fortemente à estética, ao vício da academia, de roupas e marca, de lugares que enaltecem a beleza, da segregação de determinadas baladas pelo poder estético e não necessariamente do poder aquisitivo ou do bom gosto, mas dos excessos do culto ao belo tão notório para quem é GL. Querer estar bem e saudável funciona quando é moderado. Mas já ouviram falar no conceito de “escravos da beleza”? Pois bem, alguns homossexuais se engessam tanto em determinados modelos que, se abdicarem de alguma rotina é como se estivessem abrindo espaço para um vazio interior. Vazio tão óbvio para os terapeutas mas tão evitado pelo gay.

Nos tornamos escravos viciados nos padrões instituídos pelo próprio meio. Queremos ser aparentemente e constantemente felizes e esquecemos que para chegar perto disso precisamos superar e resolver as questões que provocam as nossas infelicidades. Dessas, temos aos montes mas não assumimos, não superamos!

Muitos gays acabam priorizando demasiadamente a beleza porque a coisa bonita dá uma falsa impressão de incontestavelmente sadio e sexualmente viril, dá uma impressão do bem resolvido e do harmônico, e esse gay não concede ao seu próprio espaço a afeição por valores de vida, sentindo de companheirismo e parceria, tão claramente pregado enquanto profissionais de empresas, mas tão dificultosamente praticado na vida pessoal. Gays nos geral costumam ser ótimos profissionais ou buscam se auto afirmar bastante no trabalho!

Nem tão distante assim, para o amigo gay quando definitivamente amigo, esses valores se aplicam com certa facilidade. Mas na hora da entrega para um amor, medimos em primeiríssimo lugar o sexy appeal e em segunda importância o desempenho na cama. E, quase todas as vezes acaba assim, começa e acaba assim no próprio vai e vem do sexo, escravos da estética e dos modelos, pouco hábeis para autoconceder outros aspectos da vida que normalmente experimentamos quando se convive mais intimamente com o outro.

Ao mesmo tempo, um temor da velhice ou uma vontade imensa de ser jovem para sempre parece ser a nuvem que escurece ou clareia nosso céu de tempos em tempos. Medo de envelhecer ou disposição para ser jovem, a ordem não altera o resultado: síndrome de Peter Pan em diversos níveis, não muito diferente do cantor Michael Jackson mas que, quando se associa ao gay, a boa desculpa é de “querer viver a vida intensamente”, “ser feliz para sempre”, como se isso fosse algo bonito ou maravilhoso, como robôs ou super-homens que aceitam parcialmente sua humanidade já que tristeza, solidão, desilusão e idade são as partes (negadas) que dignificam a nossa humanidade. Intensidade, intenso, intensamente, três palavras que viram a boa desculpa para a maioria de nossas atitudes “joviais”.

Assim, alguns gays gostam de ser incompletos e acho, sinceramente, que é muito difícil ser feliz vivendo por anos e anos essa vida de apegos a beleza, a contabilidade de picas, a sensação de ser eternamente jovem e se possível com bastante dinheiro na conta.

Hoje em dia não precisamos mais ser diferentes para ser iguais. Me contento e me esforço para ser sem distinção, mas a maioria busca ser sempre algo mais.

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