Quênia proíbe filme que estreará no Cannes por ‘conteúdo lésbico’


O filme “Rafiki” (palavra que significa “amiga” na língua banto suaíli) é a primeira produção queniana a competir no Festival de Cannes, na França, realizado em 2018 entre 8 e 19 de maio.

Este ano, primeira edição do tradicional festival de cinema após as denúncias contra o produtor Harvey Weinstein e o movimento #MeToo, o júri da competição será majoritariamente feminino, presidido pela atriz Cate Blanchett. 

Na última semana de abril, pouco antes da exibição histórica no festival, o filme foi proibido no país pelo Conselho de Classificação Cinematográfica do Quênia, órgão estatal que decide a classificação etária dos filmes. 

Dirigido, escrito e coproduzido por Wanuri Kahiu, cineasta nascida em Nairóbi, o longa trata de duas garotas quenianas que se apaixonam. Suas comunidades de origem se opõem à relação e as mantêm separadas.

O roteiro é uma adaptação do conto “Jambula Tree”, da autora ugandesa Monica Arac de Nyeko, premiado em 2007 pelo Caine Prize for African Writing.

Antes da decisão do conselho, a diretora havia sido celebrada e elogiada pelo próprio presidente do órgão em um programa de rádio local, por tratar de uma questão que a sociedade queniana estava tentando “jogar para debaixo do tapete”.

Motivo da proibição

De acordo com o jornal  The New York Times, o diretor presidente do órgão, Ezekiel Mutua (o mesmo que havia saudado Kahiu dias antes), declarou que o filme “legitima a homossexualidade, em contraste com os valores dominantes, culturas e crenças do povo do Quênia”.

Segundo Mutua, a decisão não representa censura de conteúdo LGBT.

“A homossexualidade é uma realidade”, disse. “O que somos contrários é à tentativa de mostrar isso como um modo de vida no Quênia.”

Em entrevista ao jornal americano, a diretora disse que o filme contém cenas íntimas entre as duas personagens, mas que o conselho não as desaprovou. Pediu, no entanto, que ela alterasse o final, considerado “muito esperançoso”.

Kahiu se negou a fazê-lo, por considerar que o pedido feria sua filosofia: a de fazer filmes alegres e esperançosos sobre a África.

‘Afrobubblegum’

Em uma palestra para o TED de 2017, Wanuri Kahiu explica mais detalhadamente a proposta de seu trabalho.

Ela argumenta que, durante muito tempo, houve apenas uma imagem, uma representação negativa do continente africano.

“Não estou dizendo que arte engajada não é importante. Sou dirigente de uma instituição de caridade que lida com filmes e peças de teatro que falam sobre HIV, radicalismo e mutilação genital feminina”, disse durante a palestra. “É uma arte vital e importante, mas não pode ser a única arte vinda do nosso continente.”

Ela defende que os artistas africanos julguem seu trabalho em relação ao potencial que tem de ser uma “armadilha da pobreza”.

Sugere que se crie algo como o Teste de Bechdel para fazer essa avaliação: “Precisamos fazer perguntas como: essa obra de ficção tem dois ou mais africanos saudáveis? Esses mesmos africanos têm estabilidade financeira e não necessitam de salvação? Eles estão se divertindo e aproveitando a vida?”.

Esse “movimento” é chamado de Afrobubblegum, e defende uma representação do continente que seja divertida, vibrante e frívola.

Discriminação no Quênia

A homossexualidade é considerada ilegal no Quênia. Recentemente, porém, ativistas LGBT do país vêm desafiando a criminalização discriminatória, prevista no código penal atual, que ainda conserva trechos herdados do período colonial.

O Quênia foi colônia britânica, regido então por um código de leis da Era Vitoriana.

A proibição do filme ocorreu em um contexto no qual, desde o início do ano, os tribunais do país vêm sendo pressionados a rever a legislação, que fala em “crime de sodomia”, criminalizando “conjunção carnal de quaisquer pessoas que seja contra a ordem natural” com pena de até 14 anos.

Embora os tribunais estejam avaliando a descriminalização, há nos últimos anos outros casos de censura a produções que “promovem a homossexualidade”, na visão do Conselho de Classificação. 

“Temos direito à liberdade de expressão na Constituição”, disse Kahiu ao New York Times. “Não está dito em nenhum lugar que o Conselho de Classificação Cinematográfica do Quênia tem o direito de negar essa liberdade.”

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